“Deixai que os mortos enterrem seus mortos”

“Deixai que os mortos enterrem seus mortos”. A data de finados me faz refletir o que é estar vivo e quem está vivo? Existem tantos zumbis pessoas que jamais encarnaram e que estão aí vivendo de instintos, no vazio da vida sem sentido. Pessoas que jamais vão compreender o sentido da alma, da intensidade, do grito do espírito. Mas o tema é o fim…
Um dia temos de parar e encarar a finitude. Bater um papo com os mortos, cantar nossa genealogia, revirar a memória e lembrar dos que se foram Quantas vezes você não é atropelado pelo passado? Como lida com suas memórias?
Um dia somos conduzidos a olhar para traz e ver que tudo passa. Familiares, amigos, amores…e na cultura que vivemos de apego e consumismo isso se torna o caos. Caos por que temos a ilusão de propriedade da vida, do outro, posse. Meu amor… e nada é nosso, tudo é emprestado e passageiro, e na cultura da era industrial deixamos essa noção da vida real de fora da realidade. Mas a vida é justa e não muda pelos modismos… e eis que temos de encarar que quem curtimos se vai… nos deixa… O outro não é nosso, nunca foi… mas por que nutrimos essa ilusão?
Eu sou um eterno saudosista enterrei amigos queridos, familiares, paixões, colegas. A cada década que vivi iam embora pelo menos quatro ou cinco…
A cada dez anos que vivemos desaparece uma geração acima de nós ao conviver com pessoas da terceira idade, notei que um de seus maiores dramas é a solidão, em especial por que as pessoas com quem se convivia não estão mais aqui… A dor de dizer adeus é cruel…
O ensinamento do México e Japão de ver a morte como uma festa aqui é evocado. Gosto de lembrar dos meus mortos, pelo que gostavam de fazer em vida. Para eles dedico minhas lembranças, realizações, honro sua história, seu nome, seus feitos com alegria. O suspiro da mãe, a seresta do padrinho, a música do Bowie… e nessa aventura da memória vou relembrando dos momentos da existência, da minha história, quem eu sou e o que vim fazer aqui na terra.
Deixo no ar dois ensinamentos: viva sua vida com intensidade não seja um zumbi sem alma, sem vitalidade; honre seus mortos e faça valer o nome que carrega, seus antepassados, sua história e trajetória. Carpe diem – faça a vida valer a pena…
Jorge Antônio Monteiro de Lima
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