A MONTANHA RUSSA E O TRANSTORNO BIPOLAR

05/09/2017 

A subida é lenta. No alto, uma paradinha para curtir o clima e a vista. Os segundos roubam da eternidade um suspiro. O coração vem à boca naquilo que desconhecemos, mas, sabemos, está por vir. E do alto ao nada, o ínfimo. No carro da vida, a emoção esperneia nos solavancos. Da montanha ao abismo, queda livre. O fio da existência se exprime no grito, a única voz sensata.  Sobrenome: desespero.

O transtorno bipolar é assim. Uma doença mental, das mais graves.  Um quadro cheio de altos e baixos com profundas alterações do humor em que o paciente oscila entre períodos de uma elevação patológica do humor e aumento da energia e atividade (mania)- apresentando euforia, onipotência, sentindo-se, ilimitado,  perdendo noção de responsabilidade e de sua própria consciência, entrando por vezes nas psicoses(delírios). Cito como um exemplo uma paciente que atendi, que tinha sonhos megalomaníacos.

Era bailarina e em seus delírios imaginava-se sendo reconhecida como a melhor do mundo, passando a viver como tal. Qualquer um que ousasse contradizê-la estava fadado a maldições, pragas e a uma boa sessão de esbofeteamento.

Na outra fase, apresenta rebaixamento patológico do humor, da energia e da atividade (depressão). Por oscilar entre a euforia e a depressão, esta última tende a mostrar-se agravada pela nítida sensação do efeito “montanha russa”. Tristeza profunda, vontade de morrer, ansiedade, insônia, sistema nervoso abalado, apatia, são sintomas comuns ao quadro. Certa feita, atendi a um rapaz que oscilou em uma espécie de “ressaca moral”. Estava deprimido quando sua família o trouxe. Ele havia se apaixonado por uma balconista muito atraente, desconhecida. Comprou para ela, em prova de seu amor, uma “joalheria”, gastando muito além de suas possibilidades. Dias depois, quando se deu por si, entrou em depressão, assim permanecendo por vários meses.

Embora exista uma farta literatura na saúde acerca do transtorno bipolar, na prática seu diagnóstico é extremamente difícil. Primeiro porque requer do profissional conhecimento, sensibilidade e sutileza em sua observação. Este diagnóstico exige a observação da psicodinâmica do paciente acompanhamento por um certo período de tempo. Pela oscilação do humor, o paciente estará a cada hora de um jeito e a visão extremamente sintomática da área de saúde não captará tal nuance. Assim, tais pacientes passam anos como vítimas de tratamentos incompletos e cindidos, puramente sintomáticos.

Outro fator de gravidade é  o fato de tais pacientes apresentarem dificuldades em aderir a um tratamento de médio e longo prazo. Além da medicação, tais pacientes devem manter-se constantemente em psicoterapia.  Isto porque a patologia é controlada à medida em que o paciente puder aprender a lidar com a alteração de seu humor, com sua inconstância. O sofrimento da família também deve ser considerado, pela alta oscilação. A instabilidade do humor do paciente torna o convívio difícil. Sem a ajuda familiar, o tratamento é inviável. E dos altos e baixos resta apenas o grito, que pode ser de desespero caso o indivíduo não se cuide.

 

Jorge Antônio Monteiro de Lima

Analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico e musico
MSC em antropologia social pela UFG
Instituto Olhos Da Alma Sã